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Terça, 16 Abril 2013 21:15

Morador de favela não se vê como classe média

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Apesar de renda mais alta, meta ainda é deixar o morro.

 

Há dois anos, o pedreiro Luiz Claudio Nunes, 34, morava com a mulher e a filha na Pedra do Sapo, um morro íngreme, com casas penduradas no topo, na face leste do complexo de favelas do Alemão, zona norte do Rio. Vivia em uma casa de alvenaria exposta, com sala, quarto, cozinha, banheiro e uma pequena varanda.

A menina, então com dez anos, dormia no quarto dos pais, mas a casa tinha quase todos os eletrodomésticos básicos, inclusive televisão de plasma, tudo movido por uma conexão elétrica irregular, o chamado "gato". Telefone fixo, dois celulares e na TV, a programação de canais por assinatura, outra informalidade característica das favelas cariocas.

Na época, a mulher trabalhava formalmente como secretária de consultório dentário, e Nunes conseguiu emprego de pedreiro na construção de apartamentos para abrigar moradores de áreas de risco na região do complexo. Com renda familiar acima de R$ 2 mil - equivalente a uma renda per capita na casa dos R$ 700 -, já estavam em patamar que ultrapassa em muito o piso que o governo agora adota para definir classe média.

A Secretaria de Assuntos Estrat√©gicos da Presid√™ncia da Rep√ļblica (SAE) enquadra na classifica√ß√£o quem tem renda familiar per capita entre R$ 291 (m√≠nimo) e R$ R$ 1.019 (m√°ximo). Segundo pesquisa recentemente divulgada pelo instituto Data Favela, 65% dos moradores das favelas brasileiras em 2011 j√° podiam ser considerados economicamente integrantes da classe m√©dia.

O trabalho da Comissão para Definição da Classe Média da SAE, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), estimou que 48% da população brasileira seria classe média em 2009 e, considerando os movimentos de renda e de crescimento populacional, esse percentual teria atingido 54% no ano passado. Os percentuais (de 2009) são semelhantes aos calculados pelo IBGE com base no Censo de 2010.

Cheia de ressalvas dos pr√≥prios autores, a conclus√£o da SAE sobre o que √© classe m√©dia, baseada apenas na dimens√£o renda, √© controvertida. O professor associado da FEA-USP Jos√© Afonso Mazzon √© um cr√≠tico dela. Em sua avalia√ß√£o, √© preciso considerar aspectos regionais, anos de estudo, ocupa√ß√£o, bens, entre outros, n√£o avaliados. "O crit√©rio precisa ser multidimensional, avaliando diversas quest√Ķes", diz Mazzon. Ele argumenta, por exemplo, que o poder de compra varia intensamente de uma regi√£o para outra do pa√≠s.

"Uma pessoa que ganha R$ 500 na cidade de S√£o Paulo, e outra que recebe a mesma quantia no interior do Piau√≠, elas t√™m o mesmo poder de compra? N√£o. Renda √© uma das vari√°veis que deve ser utilizada, mas n√£o a √ļnica", afirma Mazzon. Mesmo o uso da vari√°vel renda corrente, na opini√£o do especialista, √© equivocada e provoca distor√ß√Ķes na interpreta√ß√£o das informa√ß√Ķes.

A diretora de programas da SAE, Diana Grosner, admite que o termo classe média ainda é permeado de subjetividade. "Ouvi dizer que o Eike Batista se considera da classe média. Eu costumo dizer que eu sou de classe média, e que estou em um ponto entre a minha empregada e o Eike Batista" afirmou, bem-humorada.

Quando questionada sobre se o piso de R$ 291 per capita familiar, explicitado no relatório da Comissão para Definição de Classe Média no Brasil, não seria muito baixo para classificar classe média, Diana citou dados apurados pelo economista-chefe do Banco Mundial, Branko Milanovic, no estudo "The Haves and the Have-Nots" (Os que Têm e Os que Não Têm). Ao analisar pesquisas em outros países, similares ao Pnad, do IBGE, Milanovic concluiu que, em 2011, 54% da população mundial vivia com renda inferior a R$ 291 ao mês.

"Voc√™ me diz que esse patamar de R$ 291 √© muito baixo, eu respondo que a renda da classe m√©dia brasileira est√° acima da mediana do mundo", disse Diana. Outro ponto destacado pela t√©cnica √© que as faixas de renda delimitadas pela secretaria no relat√≥rio, e tamb√©m as usadas na Pnad, n√£o levam em conta b√īnus, 13¬ļ sal√°rio ou renda por venda de ativos. Ou seja: as faixas de renda apuradas pelo levantamento podem ser maiores do que as registradas.

Diana explicou que o √≥rg√£o optou por usar a dimens√£o renda para definir classe m√©dia, no relat√≥rio elaborado pela secretaria, por ser um limite menos vol√°til do que outros de √Ęmbito sociol√≥gico, como educa√ß√£o, por exemplo. Al√©m disso, salientou que a renda √© utilizada como par√Ęmetro para definir classe m√©dia em outros pa√≠ses e institui√ß√Ķes como Banco Mundial e Organiza√ß√£o para a Coopera√ß√£o e Desenvolvimento Econ√īmico (OCDE).

As entrevista feitas pelo Valor mostram que a renda √© o motor, mas n√£o suficiente para uma fam√≠lia sentir-se confort√°vel. A fam√≠lia Nunes, mesmo sem novo aumento de renda, passou a sentir-se muito mais confort√°vel quando, contemplada com um apartamento de sala e dois quartos no condom√≠nio Jardim das Ac√°cias, constru√≠do para moradores de √°reas de risco do Alem√£o, mudou-se para uma √°rea plana, urbanizada, com rede de esgoto, transporte na porta e posto de sa√ļde na vizinhan√ßa. "Nasci l√° na Pedra do Sapo. A gente valoriza o lugar onde nasce, mas l√° era dif√≠cil de subir com compras, com material de constru√ß√£o... Tinha at√© discrimina√ß√£o [de quem morava no asfalto]!"

Tamb√©m a cabeleireira Claudineia Lacerda Amaral, de 34 anos, moradora do Morro do Adeus, no Complexo do Alem√£o, encaixa-se nos par√Ęmetros do governo para a classe m√©dia. Mas, ser ou n√£o de classe m√©dia "depende do ponto de vista", diz. "Acho que minha vida melhorou muito, mas n√£o me sinto de classe m√©dia", afirmou. Com renda mensal de cerca de R$ 2,4 mil, a cabeleireira vive com o marido, que √© motoboy, e tr√™s filhos em casa de dois c√īmodos.

O ponto de partida para a virada na vida de Claudineia foi a compra da casa própria em 2008. A partir daí, devido ao aumento na procura por seus serviços, começou a economizar mais para compra de equipamentos e de materiais. O plano era montar um pequeno salão na sua casa, o que conseguiu no ano passado. Agora, o sonho da cabeleireira é expandir o negócio e contratar funcionários. "Mesmo assim, ainda não me sinto classe média. Acho que seria sim, de classe média, se pudesse comprar um carro, um Honda Civic."

Ter um carro novo e morar fora da favela tamb√©m s√£o itens fundamentais para que o oper√°rio e motorista Adimilson de Ara√ļjo Domingos, 44, morador da favela da Grota, no Alem√£o, se sinta parte da classe m√©dia. "N√£o me sinto de classe m√©dia. Acho que, se tivesse renda de R$ 5 mil, R$ 6 mil por m√™s, teria condi√ß√Ķes de morar em um lugar melhor, comprar um carro novo", disse.

No fim do m√™s, Domingos e a mulher, que trabalha como costureira, t√™m renda m√©dia mensal de R$ 2.800. Para a casa em que moram com os dois filhos, o casal j√° comprou uma televis√£o LED 40 polegadas, uma outra, de 29 polegadas, aparelho de DVD, geladeira e lavadora, entre outros eletrodom√©sticos. Nada disso faz Domingos sentir-se membro da classe m√©dia. Seu sonho de vida √© comprar um im√≥vel fora da favela, mas ele diz que, hoje, n√£o pode realizar seu sonho: "Os impostos do asfalto s√£o caros e eu n√£o teria condi√ß√Ķes de arcar com eles", resume.

O casal Thadeu Kaiser, 34, e Tatiana Kaiser, 33, duas filhas, é outro que comemora estar saindo da favela, que nem é tão favela assim. Eles moram no bairro de Olaria (zona norte), já na subida da Pedra do Sapo, originalmente, um morro quase desabitado. O crescimento das favelas do Complexo do Alemão colocou a rua dentro da favela e dos seus problemas de infraestrutura e de violência agora reduzidos com a pacificação feita no final de 2010. Ele é analista de sistemas e ela é assistente em uma empresa de armazenamento de células-tronco. Juntos, alcançaram uma renda líquida mensal de aproximadamente R$ 4 mil, já no teto para uma família média de quatro pessoas no estudo da SAE.

Apesar dos avanços e da boa convivência com a vizinhança, a melhoria financeira está afastando a família Kaiser do morro. Na semana passada, estavam preparando a mudança para um apartamento dos pais de Tatiana, no vizinho bairro de Ramos, com dois quartos, garagem e longe da favela. Ela conta que a nova moradia é maior, mais perto dos colégios das filhas e situada em uma área de padrão sócio-cultural mais parecido com o da família. Tatiana tem curso superior de serviço social incompleto e o marido cursa faculdade de análise de sistemas.

Por Chico Santos, Alessandra Saraiva e Diogo Martins | Valor | 12/03/2013

Artigo produzido e publicado no site por Ana Cláudia Inez - Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Lida 4755 vezes Última modificação em Domingo, 21 Abril 2013 22:45

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